Apontamentos de Análise de Conteúdo

20051011

 

Apontamentos de análise de conteúdo

Os apontamentos seguintes são da cadeira de Análise de Conteúdo leccionada no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa aos alunos do 3º ano da licenciatura em Comunicação Social NO ANO LECTIVO DE 2004/05.

AVISO: ESTES APONTAMENTOS ENCONTRAM-SE IMCOMPLETOS. SE ÉS ALUNO E QUERES CONTRUBUIR PARA O AUMENTO E REVISÃO DESTES APONTAMENTOS POR FAVOR CONTACTA-ME:

ricardo.vilhena@gmail.com


1. Perspectiva histórica da Análise de Conteúdo

7 de Março de 05


A análise de conteúdo é uma técnica, não é um método.
A técnica é um instrumento prático da recolha de dados.
O método é uma orientação da nossa actuação. Essa actuação pode ser de natureza qualitativa permitindo uma maior aproximação ao objecto de estudo, uma maior compreensão e interpretação do mesmo. Pode também ser de natureza quantitativa, sendo a estrutura do trabalho menos aprofundada, mais geral, mas permitindo a análise estatística.
A análise de conteúdo é uma análise documental. Um documento é, em termos genéricos, toda a realização que o Homem realiza sobre ele próprio.
Existem documentos escritos e documentos não escritos. A análise de conteúdo começou pelos documentos escritos e hoje continua a ser predominantemente uma técnica de documentos escritos.
A técnica de análise de conteúdo permite ir para além das evidências. É mais do uma leitura cuidada. Temos de localizar determinados elementos, destacar, tratar e analisar. É uma análise profunda e é normalmente um trabalho moroso.

1.1. As primeiras tentativas de análise de conteúdo

A técnica é relativamente recente: sistematizada não tem mais de 100 anos. A sistematização foi difícil porque as primeiras aplicações foram poucas e esparsas.
A atitude interpretativa (hermenêutica) sempre se manifestou (ex.: textos bíblicos) mas não se pode chamar a isto análise de conteúdo.
Primeiras tentativas:
¤ 1640 - "Songs of Zion" (Suécia) - análise de hinos religiosos com vista a confirmar a sua autenticidade. Pretendia-se saber se seriam antigos e, portanto, originais ou se tratava de uma falsificação. Como se fez: leram-se com muita atenção e procuraram-se determinados símbolos. Fez a comparação desses símbolos com símbolos presentes noutros hinos da mesma época e conformou-se que eram os mesmos, ou seja, o documento era autêntico.
¤ Em 1883 Benjamim Bourdon, um psicólogo experimentalista analisou o Êxodo (Bíblia). Procurava o tema da emoção. Análise quantitativa da expressão de emoções.
¤ Em 1893 surgem nos EUA as primeiras tentativas de análise de material jornalístico. Publicam "Será que os jornais dizem a verdade?".
¤ Em 1908 o padre Thomas e Florian Znaniecki fazem, ainda que não intencionalmente, uma análise de conteúdo. Fazem um estudo sobre os emigrantes polacos. Para isso reúnem elementos da sua vida pessoal: correspondência, entrevistas qualitativas, livros, autobiografias, diários, relatórios dos serviços sociais, entre outros.

Os jornais vão sendo analisados exaustivamente pelos alunos da Universidade da Colúmbia. Isto devia-se às vantagens do material: disponibilidade imediata, uma vez que os jornais são públicos e o tipo de notícia - tentava-se detectar a existência de propaganda.
A medida é a noção mais importante para estes estudantes. Através da superfície ocupada pela noticia e o local puderam criar uma tipologia das notícias. Deste modo quanto maior a superfície (incluindo o tamanho da letra) ocupada maior a importância da noticia. Da mesma forma a notícia ganhava ou perdia importância dependendo do local onde aparecia no jornal: 1ª página, cadernos, últimas páginas...
Dizia-se que era a técnica dos estudantes de comunicação social. Hoje já não são os únicos a aplicá-la.

1.2.A análise de conteúdo durante as duas guerras mundiais

10 de Março de 05

Nas guerras intensificaram-se o número de notícias. Isso aconteceu durante as duas guerras mundiais. Sendo uma técnica associada nos primeiros tempos, aos estudantes de comunicação social, a técnica de análise de conteúdo é muito utilizada nestes períodos.
Para Harold Lasswell a análise de conteúdo serve como meio de trabalhar um quadro de conceitos de natureza política. Entre 1915 e 1927 analisa o material dos jornais. É uma análise muito sistematizada de 2 tipos de conteúdo:
1. Conteúdo manifesto: aquilo que é dito no texto. Recolhe o conteúdo que é dito. É o que mais se faz em análise de conteúdo. É o mais imediato: olhar para lá e tentar perceber do se trata.
2. Conteúdo latente: intenções do produtor do conteúdo. O que está para além do texto. Influenciado pelos teóricos do interaccionismo simbólico George Herbert Mead e John Dewey, Lasswell quer ver o que está para além das evidências. Este aspecto tinha vantagens uma vez que o objecto de estudo era a propaganda e por isso pretendia-se saber em que condições em que foi feito, as intenções que estão por detrás.
Em 1927 publica a sua tese (existe um exemplar na BISCSP) intitulada: "Propaganda Technique in The World War".
Com este estudo Lasswell:
- veio trazer alguma ordem nos procedimentos de análise
- impõe categorias de análise.
- fornece um conjunto de conceitos que se vêem a tornar fundamentais para as gerações de analistas seguintes.

Durante a 2ª Guerra Mundial os analistas insiste na comunicação social impressa. Sucedem-se os estudos de propaganda. Vão surgir outros interesses minoritários:
- década de 40: documentos de natureza pessoal (novamente depois de Thomas e Znaniecki)
- 1947/48: tentativas de análise de conteúdo.
- 1947: "Black Boy" de Richard Wright (análise de R. K. White), obra autobiográfica. Vem mostrar que a análise de conteúdo pode ser aplicada a materiais volumosos, não apenas a artigos de jornal.

Começam a surgir no meio académico, nesta altura, a preocupação de uma inexistência de uma orientação teórica para a análise de conteúdo.
Começa a surgir a análise de conteúdo a material escolar para adultos – análise da legibilidade. Verificou-se que os manuais dificultavam a aprendizagem pela sua complexidade.

Paul Lazarsfeld é um dos primeiros a analisar material radiofónico. É também um dos primeiros a escrever sobre a técnica e a sua aplicação.
Ele e Bernard Berelson foram os primeiros a trabalhar na teorização sobre a técnica. Em 1952 publica "The analysis of communication content" e durante dez anos não se escreve mais nada sobre o assunto... Com esta obra sistematiza-se a análise de conteúdo. Porque, antes, existia uma inquietação, uma série de dúvidas: afinal, como é que se faz análise de conteúdo?
Em 1949 realiza-se a 1ª Conferência Internacional sobre a análise de conteúdo: que tipo de trabalho pode ser feito? Quais as potencialidades da técnica? Que tipo de método deve ser utilizado. Estas dúvidas são retiradas em 1952 como o Berelson.
Em 1955 realiza-se, em Illinois, o 1º Simpósio sobre a análise de conteúdo. As intervenções dos oradores nesse simpósio evidenciaram as tendências da análise de conteúdo naquela época e foram coligidas por Sola Pool num trabalho intitulado "Trends in content analysis".
Em 1967 realiza-se uma 2ª reunião onde foram colocadas dúvidas mais concretas:
1. Objecto da análise. Qual é? O que é que pode ser analisado? É para tudo ou não?
2. Medida: até que ponto é que tem de ser uma técnica exclusivamente quantitativa. É uma questão que não está esgotada. Actualmente actua-se tendo em conta que são as exigências do material, do conteúdo, que definem o pendor do nosso trabalho.
3. Discutiu-se ainda as categorias de análise padronizadas: que possam ser utilizadas em todos os estudos. As categorias são o que queremos saber do conteúdo. Ex.: discurso político; categorias: economia, política externa, política interna e tudo o mais que queiramos saber do discurso. Os analistas estavam preocupados que houvessem categorias para cada tema. Seria que as 12 categorias de Berelson seriam boas e suficientes para todos os estudos ou não? A resposta é que não há um conjunto de categorias em todas as situações, mas existem algumas categorias que são recorrentemente aplicadas. O procedimento mais correcto é o analista chegar às suas próprias categorias de análise, embora também possa usar uma ou várias categorias que outro tenha usado no mesmo contexto.
4. Possibilidade do uso do computador na análise de conteúdo. É ou não possível a sua utilização? Sendo um encontro de 67, é uma questão que fica em aberto.

1.3. Generalização e perspectivas contemporâneas da análise de conteúdo

Vão surgindo alguns artigos em revistas de sociologia, ciência política e comunicação social.
De entre todas as técnicas, escrevia-se muito pouco sobre ela. As pessoas gostam mais de aplicar a técnica do que escrever sobre a mesma.
Na década de 70 começam a surgir a primeiras críticas. Aquilo que mais se critica mais é questão da quantificação: alguns criticas chegam a falar de imaturidade da ciência, devia-se ir mais além, abordagens demasiado simplistas. Diziam-se que os analistas confundiam objectividade com quantificação.
O próprio Lasswell publica em 1963: The Future of Political Science. Aborda questões teóricas e metodológicas da Ciência Política. Não refere a análise de conteúdo.
Os anos 80 vão ser a década da análise qualitativa.

14 de Março de2005

Desde os anos 40 que a Psicologia usa a técnica de análise de conteúdo. Em 1941 Gordon Allport publica Letters from Jenny. A Escola de Chicago está na sua máxima força. Analisou 300 cartas que uma senhora escreveu aos amigos. Pretendia traçar um perfil de personalidade, uma área muito cara à Psicologia.
A Psicologia tem vindo a utilizar a técnica de análise de conteúdo para a análise de registos verbais, respostas dadas a questões abertas - análise clínica. Tendo sido utilizada também para analisar processos completos - biografias, autobiografias, materiais que sejam interessantes para a caracterização da personalidade.
Os documentos de natureza pessoal são sempre documentos em que mesmo que a técnica ou objectivo não seja a técnica de análise de conteúdo teríamos de utilizar a análise de conteúdo. O facto de haver material disponível não implica que não tenha de haver uma selecção
A Psicologia interessa-se e tem adoptado a técnica da análise de conteúdo.
A Antropologia também tem vindo a fazê-lo. A análise de conteúdo etnográfica ajuda na investigação e estudo de:
- análise de histórias de vida
- mitos
- estruturas de parentesco.
Tem-se revelado uma técnica útil mas de apoio. Raramente se encontra uma dissertação com a análise de conteúdo como técnica principal. Tem sido sobretudo uma técnica auxiliar.
A História tem utilizado a técnica de análise de conteúdo e o objectivo é saber o que está escrito nos documentos. Usa a técnica para analisar grandes quantidades de materiais.
A aplicação da técnica de análise de conteúdo noutros domínios é controversa. Nos anos 20 alguns teóricos defendiam que a análise de conteúdo deveria ser exclusiva da comunicação social. Acreditavam que se fosse aplicada a outras áreas qualquer conteúdo seria passível de ser analisado e a técnica seria banalizada. Este receio não teve seguimento.
Embora existam alguns conteúdos que não sejam ideais, com alguns ajustes é possível aplicar a análise de conteúdo.
Para saber mais: Daniel Riff, Analysing media messages - ler a introdução.
A técnica de análise de conteúdo ganhou com outras disciplinas. Enriqueceu-se a nível teórico. Porque os especialistas acabaram por trazer conceitos e teorias que se vieram a tornar fundamentais e teorias que se vieram a tornar fundamentais - Lasswell, por exemplo, trouxe novos conceitos teóricos à Ciência Política.
Acaba por beneficiar pelo facto dos dados da análise de conteúdo tornarem-se parte do esforço da pesquisa global. Beneficiou também porque os melhores métodos estatísticos terem sido trazidos para a análise de conteúdo. A estatística tem estado ao serviço da análise de conteúdo e o software também.
Alguns conceitos de estereótipo, estilo, entre outros, já são dados - já transportam em si muita informação.


2. Aspectos conceptuais

2.1. Definição de análise de conteúdo

Fazer uma análise de conteúdo implica:
1. Uma leitura cuidada do documento.
2. Fazer um inventário dos elementos mais significativos.
3. Tentar perceber o significado dos seus elementos.
4. Classificar em categorias de análise.

7 de abril 2005

As primeiras quatro definições apelam à quantificação: Kaplan (1943), Berelson (1952), Cartwright (1953) e Stone (1964).
Em 1968, já depois do 2º encontro de especialistas (ver acima), Henry e Moscoivici formularam nova definição tendo em conta que a quantificação não era a única via para a análise. A análise de conteúdo servia mais para inferir do que para descrever, vivia mais do espírito compreensivo.
O autor mais destacado desta tendência qualitativa é Krippendorf.
Berelson à análise quantitativa
Krippendorf à análise qualitativa.
Nenhuma das abordagens é absolutamente preferível a outra. A escolha depende muito do material.

Vejamos mais em detalhe a definição do Berelson:
"uma técnica de pesquisa para a descrição sistemática, objectiva e quantitativa dos conteúdos comunicacionais."
- Descrição: mas mesmo na perspectiva de Berelson não é meramente descritiva.
- Objectiva: é remetida para determinadas categorias de análise. Estas têm de ser definidas previamente pelo investigador antes de começar o seu trabalho.
- Sistemática: classificar metodicamente todo o material da nossa amostra. Tratar todo o material da mesma maneira e com a mesma atenção.
- Quantitativa: deve utilizar o conceito de medida. Esta dá ideia do que é mais importante e menos importante. Parte-se do princípio de que quanto maior o elemento mais importante é para o produtor e para a audiência.
Berelson acredita que um analista que aplique a técnica de análise de conteúdo conseguirá chegar aos efeitos desse conteúdo comunicacional. Berelson tinha essa ambição, mas não se veio a verificar de forma plena pois há determinados conteúdos que não chegam à população de igual forma e os seus efeitos são determinados por outros factores exteriores ao conteúdo.
Acreditava também que a análise de conteúdo pode ajudar a identificar características dos produtores do conteúdo. Este tese revelou-se mais consistente.
Acreditava também que a quantificação é válida por si mesma (conteúdo manifesto) - o n.º de vezes que os elementos aparecem por si só é significativo. Isto veio a constituir um problema: os documentos não quantificáveis saiam do alcance da definição e a análise de conteúdo pressupõe que, com maior ou menor dificuldade, qualquer conjunto de documentos possa ser analisado.
Na segunda metade do século passado a técnica de análise de conteúdo foi a técnica que mais se desenvolveu porque:
- o n.º de analistas foi sempre crescente
- a existência de arquivos documentais cada vez mais organizados - o analista consegue encontrar uma amostra facilmente para trabalhar.
- Nos últimos anos, programas informáticos (hoje rondam o número de 22) têm sido desenvolvidos e contribuído para este desenvolvimento da técnica.

2.2. A análise de conteúdo face a outras técnicas de análise de mensagens

Outras técnicas de análise documental ou de mensagens:
- Análise retórica: quem faz esta análise está preocupado com a apresentação das mensagens. Não o que está escrito mas a forma como está escrito. É uma técnica pouco utilizada nas ciências sociais.
- Análise da narrativa: centra-se sobretudo nas personagens, nos protagonistas do conteúdo comunicacional. Interessa-se pelas suas atitudes, opções, ente outros aspectos da sua conduta. Chegamos à representação que as personagens fazem de si mesmas.
- Análise do discurso: é uma área muito interessante. Centra-se no uso da linguagem. Explora o uso que o produtor fez da linguagem. Interessa-se por aferir os motivos dos comunicadores.
- Análise estruturalista ou semiótica: é muito complexa. A escola estruturalista procura ir para além das evidências - conteúdo latente da comunicação. Procura aquilo que não se deixa ver.
- Análise interpretativa: trabalho qualitativo de interpretação das mensagens. Interpreta o que está dito.
Estes cinco exemplos são os de tipo de análise mais comuns.
Quando comparada com estas a análise de conteúdo tem algumas vantagens:
- o conteúdo em si é o aspecto mais importante, o aspecto central é o conteúdo. Permite uma exploração mais profunda e detalhada do conteúdo comunicacional.
- Permite a triangulação inter-métodos (possibilidade de utilização simultânea de mais do que uma orientação metodológica: pode ser quantitativa e ou qualitativa.
- É uma técnica não obstrutiva (não interferente): os materiais não foram produzidos para serem analisados, foram produzidos para outros intentos (informar, divertir, educar, ...)
- Pode incidir sobre material não estruturado, ou seja, podem constituir uma amostra de materiais que se encontram dispersos. Podem-se analisar, por exemplo, horas de conversas.

2.3. O quadro conceptual

O quadro conceptual é um conjunto de conceitos (abstracções da realidade) que utilizamos quando trabalhamos nesta técnica.
- Dados: são os elementos que vão ser submetidos a análise. É o material que o analista tem para trabalhar. Quando estão isolados tornam-se o elemento central: são os nossos dados. O material pode ser escrito ou não.
- Contexto dos dados: contexto temporal, espacial e a outros níveis dos materiais.
- Categorias de análise: aspectos que traduzem o interesse do analista naquilo que vai trabalhar.
- Unidades de análise: são os elementos do conteúdo comunicacional que nós isolamos para quantificar. São, por exemplo, palavras, imagens, sons, silêncios.
- Objectivos da análise: o investigador tem de saber no início quais os objectivos do trabalho: é fundamental que os objectivos fiquem claros.
- Inferência: deduzir dos dados para o seu contexto. Por exemplo, deduzir dos dados as escolhas dos produtores dos conteúdos.
- Validade (da técnica): adequadibilidade, deve-se ver se a técnica é válida, se serve para os nossos intentos, os nossos objectivos.
- Fidelidade (dos dados): o mesmo conteúdo analisado por diferentes analistas com as mesmas categorias levam a conclusões diferentes.


2.4. Problemas e controvérsias

11 de Abril de 05

Um dos principais problemas da análise de conteúdo é a dispersão da literatura. Tem havido alguma descoordenação entre os analistas. E esta descoordenação tem-se reflectido na literatura sobre a análise de conteúdo provocando uma falta de unanimidade teórica. Não existem critérios circunscritos para fazer uma análise de conteúdo. Não existem categorias estritas para analisar artigos de imprensa e outras categorias estandardizadas para analisar banda desenhada, por exemplo. Existe uma orientação geral e uma grande particularização: cada investigador escolhe as suas categorias e unidades de análise. Os manuais de metodologia dedicam pouco espaço à análise de conteúdo. Normalmente dedicam dois a três parágrafos na secção documental. Isto acontece porque na maior parte dos casos os investigadores gostam mais de aplicar a técnica do que escrever sobre ela.
Nos últimos vinte anos a técnica tem-se ressentido com a preferência de meios informáticos de análise relegando os codificadores humanos para segundo plano. A dispensa de codificadores pode ser vista de duas formas. De um ponto de vista é uma avanço na medida em que o trabalho é feito mais rapidamente. Os meios informáticos permitem um tratamento de grandes quantidades de dados em pouco tempo. Por outro lado é uma desvantagem na medida em que o analista perde a oportunidade de reconhecer bem o material com que está a trabalhar.


2.5. Dificuldades de ordem metodológica: a validade da técnica; a fidelidade dos resultados e o problema da amostragem.

Validade:

A validade diz respeito à técnica. Tem validade se for adequada para medir aquilo que é suposto medir. A técnica de análise de conteúdo tem validade se nos permitir encontrar respostas para a nossa problemática. Normalmente não é um questão muito preocupante, principalmente por causa da originalidade dos trabalhos e porque a validade depende muito da boa formulação das categorias de análise. Esse trabalho costuma ser bem feito.
Genericamente um trabalho em ciências sociais passa pelas seguintes fases: 1º Definição do tema, 2º objecto de estudo, 3º problema da pesquisa (no nosso caso de análise), 4º hipóteses de trabalho, 5º definição de conceitos. Grosso modo as etapas 3 e 4 corresponde à formulação das categorias de análise. Geralmente é bem feita, é a parte do trabalho que mais tempo consome ao investigador, de modo que não apresenta grandes motivos de preocupação. Quanto mais detalhadas forem melhor ara o trabalho.




Fidelidade:

Diz respeito aos dados, aos resultados. É uma questão básica de objectividade do analista. Os dados serão fiéis se o analista adoptar uma conduta objectiva de análise. A objectividade é um ideal, do qual nos tentaremos aproximar o mais possível. Se um determinado conteúdo for analisado por vários investigadores, durante o mesmo período de tempo, tendo como base rigorosamente as mesmas categorias de análise, estes deverão chegar a resultados semelhantes.
Esta é base teórica da fidelidade, mas na prática como é que se poderia saber se os dados são fiéis? Para cada estudo, durante o mesmo calendário, dois investigadores (um "verdadeiro" e outro de controlo) fariam a mesma análise a um conteúdo com as mesmas categorias de análise. Ora salvo raras excepções como trabalhos de estudantes universitários, isto nunca acontece porque ninguém quer ser investigador "sombra" ou de controlo.
Na falta deste controlo devemos ter alguns cuidados. Devemos ser totalmente claros na forma como conduzimos a análise dando condições para a reprodutibilidade da análise. Devemos enunciar claramente a problemática, detalhar as categorias de análise explicando como é que chegámos a estas últimas.

Amostragem:

Na impossibilidade de trabalharmos com o universo, temos de trabalhar com amostras. Se a amostra for bem escolhida e suficientemente representativa, podemos alargar as conclusões ao universo.
Existem dois métodos de escolha: probabilístico e não probabilístico. O primeiro tipo é geralmente o escolhido previamente porque implica uma maior confiança nos resultados e permite que apresentemos uma margem de erro. No entanto, acontece que na maior parte das vezes aponta-nos para dimensões de amostra impensáveis e inexequíveis obrigando o investigador a optar por um método não probabilístico.


14 de Abril de 05

Para Neuendorf a Análise de Conteúdo é uma metodologia que se centra na mensagem fundamental, no conteúdo primordial da mensagem. Pela sua importância esta é uma técnica que tem sofrido grandes desenvolvimentos de há vinte anos para cá.
3. A análise de conteúdo e os mass media

A ideia da análise de conteúdo aplicada aos mass media foi levantada por Weber no início do século XX. Este autor interessa-se por esta questão e afirma que "o conteúdo dos media é a forma de controlar ou medir a temperatura cultural de uma sociedade". O nível de desenvolvimento cultural da sociedade em que este conteúdo vai surgir.
Contudo, apesar de Weber ter levantado este tópico são os norte-americanos que desenvolvem e aperfeiçoam os métodos e as técnicas de análise de conteúdo.
Entre eles destaca-se Lasswell, que em 1927 escreveu uma obra sobre propaganda: Propaganda Technique in The World War. Nesta obra Lasswell introduz a análise de conteúdo como um método sistemático para estudar os meios de comunicação de massa.
Aplicou a análise de conteúdo para estudar a propaganda de guerra aplicada nos EUA.
Na década de 20/30, a análise de conteúdo, como técnica, populariza-se com os estudo sobre cinema.
Na década de 50 inova-se com o aparecimento da televisão.
A partir desta altura passa a ocupar um lugar privilegiado e há temas específicos na análise televisiva e cinematográfica, relativamente a temas como a violência, o racismo e a questões sobre as mulheres.
Lasswell formaliza esta técnica e afirma que a análise de conteúdo é uma técnica que pretende descrever com uma objectividade máxima, com precisão e generalidade, o que é dito sobre determinado assunto, em que lugar é desenvolvido e em que momento do tempo.
Afirma ainda que a objectividade da análise de conteúdo é analisar quem diz o quê, através de que canal, a quem é dirigido e quais são os efeitos que essa mensagem vai ter na audiência.
Andrés Romero diz que quando queremos estudar algo concreto numa mensagem, só conseguimos pela analise de conteúdo. Para este autor é o estudo concreto das mensagens. Para Romero a análise de conteúdo não é uma técnica definitiva, é uma técnica intermédia. Isto porque a própria técnica se apoia noutras técnicas e conduz-nos a determinados factores que não são definitivos, e abre portas para conhecermos algo mais.
Através do estudo da mensagem podemos melhorar o conteúdo da mensagem: faz com que a mensagem chegue à audiência de uma forma positiva. A audiência deve rever-se na mensagem.
Weber: a análise de conteúdo traz validade a qualquer mensagem.
Berger considera os meios de comunicação como forma de ante[?]. Realça os tópicos de interesse da análise de conteúdo.
Shoemaker e Reese contrariam Neuendorf. Defendem uma abordagem qualitativa e que se deve ter em conta duas abordagens.
1) Abordagem behaviourista: os efeitos que o conteúdo dos media é passível de transmitir. A sua influência na sociedade.
2) Abordagem humanista: não são os conteúdos sobre a sociedade. Mas a sociedade e a cultura sobre o conteúdo. É o reflexo da sociedade.

Utilização prática da análise de conteúdo nos meios de comunicação social - Andrés Romero

A análise de conteúdo utiliza-se:

1. Para descrever o conteúdo de uma informação em toda a sua profundidade.
2. Para um maior desenvolvimento do conhecimento
3. Para descrever os centros de interesse da pessoa (como ser social). é através da análise de conteúdo que conhecemos melhor um perfil de um grupo.
4. Para conhecer o estado de progresso e da ciência
5. Para conhecer os centros de interesse da sociedade.
6. Para distinguir as diferenças que existem entre os meios de comunicação social os conteúdos que difundem e os públicos dos vários países, línguas, etc.
7. Para comparar entre si os diferentes meios de comunicação social, o carácter específico e genuíno de cada um deles e a função dos mesmos.
8. Para descrever o conteúdo de um media, na sua forma.
9. Para aliviar a legibilidade de uma mensagem informativa, medindo a quantidade de sílabas, as frases, as conotações que existem entre as frases.
10. Para descobrir numa mensagem determinados elementos que compõem o estilo gramatical, que foi utilizado na redacção dessa mensagem.
11. Para descobrir quais os autores dos conteúdos das mensagens difundidas.
12. Para conhecer as intenções e características dos autores das mensagens.


3.1. A análise de imprensa

A análise de conteúdo é uma das formas por excelência que nos permite analisar a imprensa. Não é necessário fazer transcrição por ser já um suporte escrito.
Além disso, é muito acessível, chega a milhões de pessoas, tem uma difusão muito grande. É também um meio privilegiado. Porque segundo os investigadores tem uma grande influência na conduta humana.

Mucchelli apresenta um modelo clássico de Análise de Tendência de um jornal, de uma série de artigos. Segundo este autor, a análise divide-se em dois aspectos: análise da tendência e análise comparada da tendência.

Análise de tendência
1º. Estabelecimento dos objectivos, o que é que nós queremos, o que procuramos.
Objecto: suporte da análise. Em que tipo de suporte aparece o documento.
Direcção ou orientação: se a orientação é favorável, neutra, desfavorável ou se não existe.
Normas: em que é que o autor se baseou para produzir determinado conteúdo.
Valores: qual o sistema de valores implícito no documento.
Método: utilizado na concepção deste conteúdo - entrevista, questionário, ...
Traços: através da análise de conteúdo o que é que ficamos a conhecer das características pessoais e psicológicas do próprio autor.
Agente: quem tomou a iniciativa de produzir este documento.
Autoridade: em nome de quem é emitida esta comunicação.
Projecto: relacionado directamente com os objectivos, com as intenções do autor.
Objectivos: efeitos que o autor pretende produzir ou atingir. Quais as características da audiência, a quem se dirige a comunicação.
Forma: género dominante.
Forma sintáctica: parte mais gramatical, o que é que as palavras transmitem.
Intensidade emocional: avaliar o grau de paixão, convicção ou emoção do documento.

2º. Estabelecimento de um esquema de análise categórica.
- determinar as variáveis
- procurar indicadores dessas variáveis
ex.: um estudo que tem por objectivo caracterizar o público que lê uma determinada revista.
Vamos determinar as variáveis:
1. a escolha dos temas
2. características dos leitores que escrevem para a revista.
Depois vamos procurar indicadores dessas variáveis:
Para a variável 1 os indicadores são: lista de títulos dos artigos, tamanhos dos artigos, etc. Para a variável 2: sexo, idade, tipo de problemas apresentados, parte do jornal a que se referem as cartas, estilo, valores de referência.

Análise Comparada da Tendência
Temos o mesmo tema de estudo em vários documentos.
Por exemplo, para o mesmo conteúdo analisar jornais de diferentes países.
1 - comparar a mesma a categoria de conteúdo em vários documentos.
2 - comparação de documentos provenientes de uma mesma fonte, mas produzidas em alturas diferentes.

18 de Abril de 05


Aplicação da análise de conteúdo à imprensa
Miguel Clemente Diaz vai abordar temas referidos em termos de imprensa.
Neste âmbito existem dois tipos de estudos:
a) influência que os meios de comunicação social têm relativamente à mudança de opinião das audiências, por exemplo: conduta de voto, políticas governamentais.
b) Determinação de certos grupos sociais e a sua caracterização - Lamy e Levin dizem que se queremos conhecer um grupo através da imprensa devemos utilizar a análise de conteúdo.
Lamy e Levin realizam em 1985 um estudo relativamente aos valores punk, através da leitura dos seus jornais. Analisaram o grupo através da análise de conteúdo. Seleccionaram um exemplar de cada um dos jornais ficando com uma amostra total de 37 artigos. Vão analisar e categorizar os valores expressos nos jornais. Concluíram que os punks são um grupo muito mais expressivo e menos institucionalizado.
Rosegrant em 1986 decidiu analisar as páginas centrais da Playboy. Tentou perceber quais eram as partes da mulher que eram mais atractivas para o homem. Vai fazer uma análise tendencial, chegando à conclusão que há 3 variáveis neste estudo que têm a ver com o tamanho de certas partes do corpo da mulher.
Sanders realizou um estudo para analisar o traje das mulheres em termos de carreira profissional. Conclui que o traje feminino acaba por se aproximar do traje masculino. Vai escolher 3 anos distanciados por uma década - 1963, 1973 e 1983 - analisando seis revistas, sendo que 3 eram de negócios e 3 eram para o público em geral. Nos recortes aparecem muitos mais homens do que mulheres, havendo definitivamente um aproximação ao traje masculino.

Exemplos que demonstram a vasta amplitude da análise de conteúdo:

- apoio da imprensa nacional ao governo dos EUA durante a invasão do Panamá: pretende-se estudar se há ou não uma influência internacional em relação à conjuntura. A Times e a Newsweek acabavam por se unir à atitude governamental, o mesmo não se passando com o The Nation, o qual se afirma como um forte crítico da política externa dos EUA.
- A cobertura feita por jornais de prestígio à política externa americana nas campanhas de 1990. O que se pergunta é: terão os acontecimentos de carácter internacional sido reflectidos nas campanhas dos congressistas? A técnica utilizada foi a análise de conteúdo de todas as notícias publicadas em 4 jornais e prestígio, entre 9 de Outubro de 1990 e 6 de Novembro de 1990, sobre a campanha e sobre a política externa americana. A conclusão é que apesar do panorama internacional apresentar questões de profundidade, os congressistas preocupavam-se mais com as questões de política interna.
- O conteúdo publicitário nos jornais afro-americanos. Perguntas de partida: 1. Qual a distribuição do espaço publicitário e o número de anúncios, tendo em conta os vários níveis de publicidade? 2. O espaço publicitário varia de acordo com a amplitude de circulação do jornal? 3. Comparação com o espaço publicitário dos jornais mais lidos pela população branca. A conclusão foi que os jornais afro-americanos recebem mais ajuda em termos publicitários de companhias nacionais do que locais.
- Imprensa e drogas: a toxicodependência no discurso jornalístico, o objectivo era analisar a representação jornalística do fenómeno das drogas. Como é a imprensa define, percebe e dá sentido a este fenómeno social. o método foi a selecção de jornais publicados a norte do Rio Douro: Público, Jornal de Notícias, o semanário Independente e a revista Sábado. Comparou-se os textos submetendo-os a dois tipos de análise: 1. Análise categorial temática, criando categorias, tendo em conta os temas abordados nos títulos, 2. Análise textual discursiva, analisa a sintaxe e os estímulos jornalísticos.

3.2. A análise de imagens

O ponto comum entre a análise de imagens e a análise de imprensa é o significado. Existem dois tipos de mensagem inerentes à imagem:
1. Informação semântica: aquilo que nos chama imediatamente à atenção. É o significado literal da mensagem.
2. Aspecto estético ou poético: o que nos interessa é o carácter simbólico da mensagem.
Assim, os dois tipos de mensagem que existem numa imagem são:
a) mensagem literal
b) mensagem simbólica.

Método de análise de imagens
1. A informação descritiva (descrição literal de uma mensagem, o que está ou não em primeiro plano) - ficamos com uma ideia clara em relação ao conteúdo de uma mensagem. É a tradução literal do conteúdo de uma mensagem.
2. As conotações:
- a linguagem das cores
- a linguagem gestual
- a linguagem fotográfica
- o espaço pictórico (a imagem transporta-nos para sentimentos)
- a linguagem dos elementos da imagem que fornecem informação descritiva.
3. A síntese - tentar perceber todos estes elementos e compará-los de uma forma harmoniosa.

A análise de paralinguagens tem a ver com atitudes, gestos, sotaques. Não é tanto o que se diz, mas a forma como se diz.

21 de Abril de 05

- Influência da TV (imagens). Há sempre temas preferenciais e são basicamente 3: estereótipos sexuais, minorias étnicas e ou sociais e questões da violência (problema constante.
- Cinema: a análise de conteúdo anda sobretudo à volta de dois temas: o sexo e a violência. A violência sexual aparece a um nível moderado, é normal, é tida como uma acção romântica, isto em relação aos filmes indianos da década de 90.

4. As aplicações da análise de conteúdo
4.1. Os conteúdos elegíveis
4.2. Os objectivos de análise (Berelson)

Primeiro temos de saber o que vamos analisar, qual é o material a utilizar. Depois temos de estabelecer os objectivos. Dentro dos objectivos da análise podemos analisar:
características do conteúdo
causas do conteúdo, o que levou à sua produção, porquê e por quem foram produzidos.
Efeitos do conteúdo: sobre a audiência ou sobre o receptor.

Características do conteúdo
A. Substância do conteúdo, aplicação do que podemos fazer.
1. Descrição de tendências no conteúdo das comunicações. Analisam determinados materiais de comunicação durante um período de tempo com o objectivo de verificar se as tendências gerais se alteram ou não. Podemos avaliar as tendências editoriais e os discursos políticos, serve também para termos uma perspectiva histórica dos conteúdos comunicacionais.
2. Detecção do desenvolvimento da escolaridade ou instrução. O objectivo é verificar até que ponto, ao longo do tempo há ou não alteração dos materiais de apoio escolar, relativamente ao conteúdo.
3. Diferenciação de distinções internacionais no conteúdo da comunicação. Avaliar o factor geográfico, que está aliado ao factor cultural. Estudar o que serve de notícia nos diferentes países. Permite também desenvolver uma perspectiva comparativa.
4. Comparação dos meios e "níveis" de comunicação. Forma como o mesmo conteúdo é transmitido nos diferentes meios. Um determinado meio pode trazer uma abordagem extremamente extensiva de um determinado assunto do que outro. Os níveis são no sentido de quem vão atingir. Consoante o conteúdo atingem-se audiências diferentes.
5. Apoio de informação política e militar. Muito utilizada entre as duas Guerras mundiais. Foi muito utilizada como técnica de apoio militar.
B. Causas relativas à audiência do conteúdo

1. Determinação de atitudes, interesses e valores (padrões culturais) de grupos populacionais. Tentativa de sabermos qual é o espírito determinada época. Contudo, os materiais a que tenham acesso podem não espelhar esse espírito e consequentemente podem ocorrer erros na análise. Podem ser importantes para um determinado momento, mas não serem importantes para explicar tendências.

Efeitos de conteúdo

1. Detecção de focos de atenção. Procurar saber o que interessa aos receptores (público). Analisar a atenção das pessoas.
2. Descrição das respostas atitudinais e comportamentais às comunicações. Este é o verdadeiro estudo. Tem a ver com as reacções. Podemos analisar, por exemplo, criticas cinematográficas, podem fazer-se entrevistas para saber a reacção das audiências a determinados conteúdos. Tentam saber as reacções que os conteúdos provocam.

28 de Abril de 05

5. A análise de conteúdo quantitativa versus análise de conteúdo qualitativa.
Berelson, em 1952, desenvolve a análise quantitativa. Dando-lhe três características fundamentais:
- quantitativa
- sistemática
- objectiva.
A abordagem qualitativa começa a surgir nos meados dos anos 50, mas na década de 80 afirma-se com Krippendorf que diz que é uma análise qualitativa que predomina na análise de conteúdo. É uma técnica que permite fazer inferências.

5.1. Conteúdo manifesto vs conteúdo latente.
Berelson
Krippendorf
Conteúdo manifesto
Contexto dos dados
Descrição e Classificação
Inferências (deduções lógicas das quais se tiram conclusões)
Conteúdo válido em si mesmo (um significado)
Conteúdo é um indicador de contexto
Análise quantitativa
Análise qualitativa

5.2. Procedimentos técnicos Diferenciados.
1. Objectivos/Eficácia: o método é mais eficaz pelos objectivos que pelos trabalhos a investigar. Uma imagem, por exemplo, é dificilmente quantificada. O significado vai para além da quantificação. É mais fácil quantificar um texto.
2. Flexibilidade: a técnica mais flexível é a qualitativa porque permite mais interpretação, porque as categorias não estão previamente codificadas. É um processo de descoberta, que não acontece na abordagem quantitativa, porque não se pode mudar as categorias já construídas. A pesquisa quantitativa é uma pesquisa em série, é mais rígida.
3. Carácter reflexivo: tem a ver com a distância entre o analista e os dados. Na pesquisa quantitativa não há proximidade porque os dados não podem ser alterados. Já na pesquisa qualitativa a análise vais-se construindo à medida que o analista vai interpretando os dados, há uma maior proximidade.
4. Problemas técnicos: na pesquisa quantitativa é a questão da fidelidade, mesmo utilizando as mesmas categorias e o mesmo objecto de estudo, é mais provável que haja mais fidelidade do que na abordagem qualitativa. Isto é, na abordagem quantitativa é mais provável que dois investigadores cheguem à mesma conclusão, embora nem sempre aconteça.
5. Progressão na recolha de dados: enquanto a progressão na pesquisa quantitativa é serial, divida por fases que são cumpridas (1º escolhe-se o tema e o material, 2º objectivos, 3º categorias, 4º recolhe-se os dados) na pesquisa qualitativa a progressão é circular, as primeiras fases são iguais, mas o processo de análise começa antes da criação das categorias de análise. As categorias vão surgindo.
6. O envolvimento do investigador: o envolvimento do investigador é maior na pesquisa qualitativa do que na quantitativa. É maior porque é um processo em construção, O seu envolvimento ocorre em todas as fases, na quantitativa surge só na fase da análise da dados.
7. Tipo de amostra: na pesquisa quantitativa o tipo de amostra preferencial é a probabilística. A representatividade não é vital. Basta ter um número mínimo da materiais que vão garantir a fidelidade da análise, as amostras de tipo não-probabilístico são usadas na pesquisa qualitativa.
8. Categorias pré-definidas: é uma realidade da pesquisa quantitativa. As categorias antecedem o próprio processo de análise. Na qualitativa a definição das categorias é feita ao longo do estudo.
9. Treino para a recolha de dados: o treino é mais preciso na análise qualitativa.
10. Tipos de dados: Na análise quantitativa os dados são números, na análise qualitativa os dados são textuais.
11. Descrição narrativa e comentários: é mais passível de acontecer na análise qualitativa. Se existem na análise quantitativa são apenas apresentados na fase final, como por exemplo, a comparação entre quadros ou tabelas. Na análise qualitativa acabam por ser o todo.
12. Conceitos emergentes durante a pesquisa: na análise qualitativa é mais provável surgirem novos conceitos porque as categorias vão surgindo. Há reformulações constantes.
13. Análise de dados: a análise quantitativa é predominantemente estatística. A análise qualitativa é de carácter textual.
14. Apresentação dos dados: na análise quantitativa a apresentação é feita por gráficos, tabelas, etc. Por tudo o que nos reporta para números. Na análise qualitativa é sobretudo feita por texto.

05-05-05
exercício



12 de Maio de 2005
A análise de conteúdo qualitativa tem uma natureza mais interactiva e mais complexa e as etapas estão abertas. Pode-se voltar atrás e recategoriazar.
A análise de conteúdo quantitativa é basicamente um trabalho de interpretação da objectividade, pode não estar [?], enquanto que na quantitativa podemos medir frequências, etc. Aqui as nossas conclusões baseiam-se nas categorias sucessivas que vamos[fazendo?].
Outro aspecto importante respeita aos objectivos, os que ambos as [?] [análise?] é também o nosso: aproximam-se o mais possível do significado dos materiais, para além da audiência.
Algumas análises qualitativas são quantitativas, porque há uma tendência par quantificarmos alguma coisa o que se reflecte em termos como repetidamente, muitas vezes, frequentemente, etc.
Consoante o tipo de resposta que [queremos?][?], então devemos escolher uma análise quantitativa ou qualitativa. Se as referências que consideramos importantes são uma ou nenhuma relativamente ao conteúdo em causa, então consideramos importante uma análise do tipo qualitativo. Se as referências são mais do que uma, devemos fazer uma quantitativa.
Se a dimensão da nossa amostra é reduzida não se justifica uma análise quantitativa, logo temos que ter em conta o corpus da amostra, o corpus é o conjunto de documentos ou materiais que são alvo da análise de conteúdo. Alguns materiais podem ser comparados com materiais [obra-conteúdo?] (por exemplo críticas a livros). Aqui deve-se fazer uma análise quantitativa.
Quando conhecemos s características do conteúdo ,é de em si mesmo que nos interessa, vale como categoria. Daí ser mais fácil descreve-lo através de uma análise quantitativa. Já se optarmos pelas causas, o polo oposto, então a análise é qualitativa.
Na análise qualitativa as únicas [fases?] da análise estão interligadas e a análise dos materiais é feita no seu todo, e tem um carácter estrutural, o significado está no todo e não nas partes. Já na quantitativa isto não faz sentido, obviamente que há fragmentação.

5.3. O problema da categorização


As categorias têm um papel central na análise de conteúdo. Todas as perguntas de partida transformam-se em categorias.
Categorias: [rubricas?] significativas em função das quais o conteúdo são classificados e [centralmente?] quantificados.
Relativamente ao processo de análise as categorias podem ser feitas:
- à priori: categorias por caixa, são formuladas as hipóteses e categoriza-se para testar tais hipóteses.
- À posteriori - categorias por milhas: surgem durante o processo de análise. Chama-se a isto procedimento exploratório.

Na análise quantitativa as categorias têm de aparecer com forma clara, com poucas palavras e facilmente identificáveis. Na qualitativa isto não é tão exigente. Não há necessidade de serem [?] formuladas (não há tanta rigidez). Contudo, podemos encontrar as seguintes características gerais das categorias:
1. devem ser exaustivas: todo o conteúdo que decidimos classificar deve ser integralmente incluído nas categorias consideradas.
2. Exclusivas: os mesmos elementos devem pertencer a uma e não a várias categorias.
3. Objectivas: as categorias devem ser o mais explícitas possível.
4. Pertinentes: deve haver uma relação estreita entre as categorias com objectivos do estudo e com o conteúdo que está a ser classificado. (um problema das categorias definidas à priori é poderem não ser pertinentes)

Origem das categorias
Geralmente apontam-se duas fontes:
- o próprio documento em análise,
- um certo conhecimento geral do conteúdo que estamos a estudar
Relativamente às categorias definidas à priori, pode haver o problema de não termos em consideração aspectos importantes do conteúdo.
Já as categorias feitas à posteriori devemos também só defina-las após leituras sucessivas dos materiais que estamos a estudar (isto para não nos afastarmos dos objectivos da investigação).
As categorias não devem ser, muito minuciosas nem demasiadamente [?]. contudo também não devem ser em número insuficiente nem demasiado generalizadas.

5.4. Problemas de inferência


Comparações lógicas que servem para tirar conclusões são importantes para vermos para além do conteúdo (o contexto).
A inferência é uma fase intermédia entre o processo de descrição e o de interpretação.
A descrição é a primeira etapa da realização da análise de conteúdo. Descreve-se as próprias características do texto.
A interpretação é a última etapa da realização da análise de conteúdo. Tem como objecto a atribuição de significado às características do texto.
Pode-nos surgir dois tipos do referências:
- sobre a origem da mensagem (quem e em que contexto)
- sobre os destinatários do conteúdo (efeitos do conteúdo).

1. o problema das inferências é o rigor, nomeadamente no caso das [falas?], [?] porque o conteúdo é encarado não como uma categoria, mas sim como um indicador. Daí Berelson recomendar a análise quantitativa.
2. As inferências podem ter também uma natureza ambígua. Podemos estabelecer uma relação causal que pode não existir. Daí a necessidade de se testar estas inferências através de unidades [esporádicas?].
3. Contudo, estas inferências são importantes, porque conduzem à investigação.

16 de Maio de 05

6. O processo de análise


A análise de conteúdo é um processo constituído por várias fases. A primeira coisa a fazer é a escolha do tema e o que vale a pena destacar neste tema. Depois passamos à formulação do problema de pesquisa que deve ser tão claro quanto possível. O problema de pesquisa aparece-nos como uma dúvida central, é a nossa grande motivação. Para podermos trabalhar o problema de pesquisa temos de transformá-lo em hipóteses. Estas são afirmações provisórias que vamos tentar esclarecer (escolha do tema, formulação da problemática da pesquisa, hipóteses). Todas devem ser o mais claras possível, o leitor deve perceber imediatamente do que se trata, daí [?] a qualidade do nosso trabalho.

Há outro ponto a ter em conta: a escolha dos materiais. Os que seleccionamos de início podem não ser o que constituirá o corpus de análise. Devemos seleccionar muitos materiais do início. São aqueles são suficientes para [formular?] o nosso problema e as nossas hipóteses. Em seguida vamos identificar as categorias de análise, são elementos, mais concretos, são os instrumentos práticos. As hipóteses são portanto, fundamentais.

A análise de conteúdo é um processo de etapas:
6.1. pré-análise
¤ É sobretudo uma fase de tomada de decisão, e como tal é fundamental.
¤ O analista tem o primeiro contacto com a técnica da análise de conteúdo.
¤ Tomada de contacto com alguns materiais que vão ser objecto de análise.
¤ Objectivo: conferir à pesquisa alguma organização, há um delinear de um plano, que permitirá trabalhar de uma forma sistemática e organizada;
¤ Leitura fluente (de materiais escritos, de imagens...)

Constituição do corpus de análise
¤ Devemos tomar decisão quanto aos materiais que queremos analisar. Vamos ter de seleccionar alguns materiais.
¤ Se estivermos numa situação de trabalho com amostras, devemos cumprir as seguintes regras:
- regra da exaustividade: o universo deve estar todo representado na amostra
- regra da representatividade: os documentos devem ter características comuns, tem de haver um elo de ligação entre eles, a temática dos materiais deve ser o mais parecida possível.
- regra da pertinência: deve aproximar-se o mais possível quer do problema quer dos objectivos.

Formulação da problemática
¤ Formular o problema de pesquisa
¤ Formular as hipóteses
¤ Definir os objectivos da pesquisa
¤ Apresentar o quadro teórico-conceptual (definição dos conceitos e optra pela orientação teórica, se é do tipo quantitativo ou qualitativo).
6.2. Exploração do material
¤ codificação do material
¤ categorização dos dados
¤ tratamento prévio dos dados (tratamento inicial, quer quantitativamente quer qualitativamente).

Codificação
Significa transformar dados em bruto em dados trabalháveis.
Consiste em três tarefas:
1. recorte do material
2. enumeração
3. classificação e agregação dessas subdivisões a título mais geral.

Os elementos que são identificados têm o nome "unidades de análise" (ex.: palavra, cores, sons, filmes, temas, espaço). Isto vai-nos permitir quantificar alguma coisa. Na pesquisa qualitativa o que nos interessa saber é se esta ou aquela unidades estão presentes ou ausentes.

Tipos de unidades de análise

Existem três tipos de unidades de análise: unidades de registo, de contexto e de enumeração (são critérios de quantificação, não são propriamente unidades).
Unidades de registo:
- são as mais importantes e o mais pequeno segmento do conteúdo que vamos recortar (seleccionar),
- são aquelas chamadas que se constituem uma referência à categoria que estamos a estudar.
- São segmentos que identificamos no conteúdo como sendo muito importantes, pois significam algo. Daí que se afirme que são unidades de significação.
- Funcionam como indicadores de categoria e são os elementos que a frequência[1] representa (aquilo que vamos quantificar)
As unidades de registo mais frequentes são: palavra, tema, personagem, item, medidas de espaço e de tempo, outras: tiras de BD, cores, etc.

1. A palavra é a unidade de registo mais frequente. É a mais fácil de utilizar. A maior parte dos objectos de análise são documentos escritos. Podemos trabalhar com palavras-chave mas também com as palavras plenas e as palavras vazias. As plenas chamam-se assim porque são ricas em significado. As vazias não têm significado propriamente dito, funcionam como elo de ligação. É normalmente utilizada em material escrito, mas também há muitos estudos em que aparece como unidade de registo frequente por excelência, em estudos políticos, literários ou de estilo.
2. Tema: normalmente aparece sob a forma de uma frase que expressa uma ideia sobre um determinado assunto. É a afirmação de um determinado assunto. Podemos usar várias unidades ao mesmo tempo. As palavras de u poema podem ser exemplo de um tema. Num texto pode ser um parágrafo e como é extenso podemos dividir o tema em subtemas. Pode ser usado nos dois tipos de análise. Mas na pesquisa quantitativa funciona muito bem porque torna mais fácil quantificar frequência.
3. Personagem: se a considerarmos devemos procurar todas as expressões que sejam referência de uma dada personagem. Poderão ser personagens históricas, que estejam inseridas em histórias, em poemas, etc.. vamos quantificar, por exemplo, o número de vezes que essa personagem aparece ao longo do material que se está a analisar.
4. Item: por exemplo, se queremos estudar Eça de Queirós temos de estudar todas as suas obras, mas podemos ter como unidade mínima Os Maias, por exemplo. É um conteúdo mais amplo, mais complexo. Trata-se o conteúdo de uma forma mais global.
5. Medidas de espaço e de tempo: por exemplo, espaço que uma notícia ocupa num jornal, seria uma unidade de espaço. Mede-se algo em termos físicos. Em termos de tempo poderá ser, por exemplo, a duração de um discurso, de um filme, quantos segundos dura uma notícia radiofónica.
6. Outras: tiras de BD, cores, tons (música: instrumentos musicais...), etc.. todos estes elementos podem ser considerados unidades de registo.

As unidades de registo, por vezes, não são suficientes para desenvolvermos o estudo. É necessário recorrer a unidades de apoio.



Unidades de contexto
São segmentos mais alargados do conteúdo. Por exemplo, sendo que a unidade de registo é a palavra, mas não exprime o contexto, utiliza-se a frase onde a palavra aparece. Servem para clarificar as unidades de registo quando estas não são explícitas.
Quando usamos estas unidades temos que utilizar duas colunas: uma para as unidades de registo e outra para as unidades de contexto. Utilizamo-las sempre que a unidade de registo não é, por si só, ilustrativa da categoria.

Unidades de enumeração
Não são da mesma natureza que as anteriores. São basicamente critérios de quantificação e regras de contagem:
1. Frequência: existem dois tipos, frequência absoluta e frequência relativa.
A frequência absoluta diz respeito ao número de vezes

2. intensidade
3. direcção
4. ordem
5. co-ocorrência.



6.3. tratamentos dos resultados e análise
Aqui surgem as conclusões
[1] Expressão de vezes que estas unidades aparecem. As unidades vão ser traduzidas em referências.


Archives

10/11/05  

This page is powered by Blogger. Isn't yours?